terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Rituais

                       


Ouço a água do chuveiro de minha vizinha, seu quarto com banheiro fica há menos de meio metro do meu, não no lado mas em frente, quando ela fecha a porta já estou bem desperta, sento na cama, rezo e antes de entrar no banho acendo o fogo para a água do café.

Ainda de camisola faço a faxina, primeiro estender a cama, depois tirar o pò, então me visto e vou para a missa das dez, vou todo dia a missa ela me ajuda a dominar os monstros que me rondam só nâo vou as segundas porque é dedicada a alcóolatras com depoimentos de integrantes do aa e eu lembro de meu pai, ás onze horas já estou de volta, acendo o fogo para cozinhar o feijão que já está de molho, feito isso, limpo todo o assoalho com pano úmido, afasto os poucos móveis quando eles não permitem a limpeza adequada.

Depois do almoço, tomo o remédio para diabetes, faço a limpeza da louça, como uma laranja, gostaria mesmo de comer um pedaço de bolo, ou de tiramissú, mas o fato de agora ser diabética tirou-me também este prazer.

Deito, leio algumas linhas e adormeço durante uma hora, depois, transporto a maleta de madeira para a mesa e ali disponho sobre um azulejo a argila ainda em peça e começo moldando alguns passáros, aliso-os, com a ponta dos dedos, com a espatulazinha de madeira, até considerá-los bem acabados, então abro-os com a esteca deixando uma abertura suficiente para plantar uma folhagem pequena, ou para que sirva de vaso, uma peça bastante vendida, depois alguns divinos, dois bustos para colocar bijuterias, coloco-os para secar sobre um tecido no chão no canto da cozinha.

Depois de vinte e quatro horas é realizada a primeira queima, as peças maiores são submetidas a duas queimas, depois a esmaltação e seguem para venda.

Não é ela quem vende e sim um casal, donos de um grande empório no Juvevê, há muitos anos mantém essa relação, agora já de confiança, com eles, mais recentemente o proprietário de uma floricultura na praça Zacarias também vende suas peças principalmente vasos e guirlandas de flores.

Pouco antes das sete janto um sanduíche de atum, alface e tomate, limpo a cozinha, tento desenhar algumas peças que venho tentando desenvolver mas embora tente impedir os pensamentos maus, começo a ficar angustiada, e o calorão que me assola agora quase todas as noites começa a me porejar a cabeça e o rosto de suor, como se um balde de água fervendo estivesse me escorrendo pelo pescoço.

Imediatamente começo a procurar o tênnis, calço mesmo sem meias, também não coloco sutian, saio pra rua e começo uma corrida facilitada pelo declive da Ermelino de Leão, corro loucamente, dois homossexuais que vem em sentido contrário, assustam-se.

_Creedo, louca.

Continuo em minha corrida só parando nos bancos em frente ao edifício Tijucas, arquejante sento ali e espero um bom tempo até que o calorâo e o suor começam a ceder então vagarosamente inicio a subida para casa, vou direto para o chuveiro.

Depois só de camisola sento com um jornal de literatura nas mãos, rio lembrando dos rapazes que assustei em minha corrida insana.

Mais tarde como uma pera, escovo os dentes e deito, talvez consiga dormir, hoje.



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