quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Desistência

   
Enquanto subo em direção ao viaduto vou sentindo o deslocamento de ar dos automóveis em alta velocidade, andar naquele local a qualquer hora é perigoso e hoje pré feriado, hora do rush, é sem dúvida muito mais perigoso.

Talvez se tivesse corrido mais perigo ao longo dos anos não precisasse estar agora ali, sentindo o sibilo dos pneus nos ouvidos, mas na juventude acreditei que poderia fazer meu destino, modifica-lo, então sai dando murro em todas as facas que se interpuseram em meu caminho, não foram poucas as facas, e nenhuma cega, todas cortaram tão profundamente que mesmo que tivesse conseguido mudar substancialmente meu destino provavelmente não o teria apreciado, tal Marilyn Monroe ou Cristina Onassis, e não sendo linda nem rica as coisas ficaram muito piores.

A primeira lembrança que tenho de minha infância é como um pesadelo de que se desperta num repente, vejo minha mãe sentada numa cama grande com uma criança mamando em seu peito, sei que se tratava de meu irmão M, depois dele viriam mais cinco sem que nenhum tenha escapado de suas sinas.

Ela me mandou comprar um pão no armazém da prima de meu pai que ficava na porta da frente do casarão onde alugávamos um quarto, o dinheiro não era suficiente para o pão, mas ela me advertiu para dizer ao rapaz que depois ela pagaria o pão.

Estaria aí a gênese da angústia ininterrupta que me atormenta, o desespero sempre me corroendo no sorriso do rapaz mostrando para a mãe a moeda insuficiente?

Ou porque tive a petulância de tentar escapar do meu destino, aqui estou, tenho um papel que diz que conclui o curso na universidade, um outro que fala em pós-graduação, serviram para alguma coisa? NADA.

Em todos os minutos da minha vida me perguntei se eu tivesse ido embora naqueles dias aos quatorze anos, atrás do sol e do mar, teria então sido feliz, que é a felicidade afinal?

Será, como eu imagino, uma casa bonita, lindos quadros, caros tapetes, muitas viagens?

Não há mais tempo para descobrir, por isso sem mais delongas, sem pensar, dou o passo para direita e na mesma hora as estrelas que ainda não chegaram ao céu descem aos meus olhos e ouço o baque surdo o esfarelar de ossos e sentidos.







sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Bonde Perdido

  

Acabo de adotar uma border collie patas machucadas, chorou horas em meu portão até que vendo-a tomar água com sabão da sargeta franquei-lhe a entrada e o coração, descobri que mesmo alimentada ela come madeira, pedaços de tijolos e telhas, me diz o veterinário que isso é comum em cachorros abandonados, ao vê-la pulando pra lá e pra cá no pequeno espaço de que disponho ao fundo do quintal me pergunto se eu teria a mesma disposição de comer pedras, é provável já que até aqui vivi de pedradas e pauladas, me preocupa as consequências para o psicológico dela, mas oxalá ela não seja fresca como eu e já tenha esquecido o abandono, a fome, a sede...

Que não seja agora uma covarde, que na hora certa seja capaz de retomar o bonde e levar a vida a frente para o que der e vier.