terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AUTO DAS DORES

 
 
Inda noite, deixa os filhos na única cama tateando a luz da vela, que luz elétrica só daqui uns cinco anos.

_Eles regularizam nossos papéis, comadre vai ver.

Rosto lavado, batom nos lábios.

Outra mirada nos filhos, adormecidos.

Vela apagada, porta do barraco bem fechada.

_Senhor cuide de minhas crianças mais este dia.

Pelos degraus de pedras, quase a correr, lá vai mais uma Maria, esta que sempre lembra que...

_Mãe acertou em cheio poderia ser Maria do Rocio,

Maria Rita, Maria Helena como as várias que conhece,

mas não, mãe que do babado entendia bem mandou, bota aí:

Maria Das Dores.

E de Maria e de dores,vai se cumprindo a sina.

Sétima filha num renque de dez crianças, metade anjinhos que subiram para as hostes divinas antes do primeiro ano de vida, também ela, mãe aos catorze, aos vinte com dois filhos vivos, dois mortos, companheiro cumprindo pena na Frei Caneca, das Dores vai empurrando a vida.

Na segunda-feira dorme mais, limpa o barraco, lava roupa acorda com os resmungos e beijinhos, da linda Greice que na inocência de seus quatro anos, adora dormir entre a mãe e o irmão Michel que aos seis anos, já rateia.

_Ô mãe vê se consegue pelo menos uma cama só pra mim, não gosto de dormir com você e a Greice, ela joga as pernas em cima de mim a noite toda.

_Meu Deus! Preciso de mais uma casa para limpar.

De terça a sábado, a mesma rotina, deixar os filhos sozinhos, sai quase a correr pelos becos da favela, até chegar ao asfalto e mesmo que seja pendurada, seguir aos trancos e barrancos, dentro da primeira condução, até a cidade, de lá caminhar mais um eito, até as casas dos bacanas na zona sul, deixar tudo limpo, até as cinco horas

para chegar as sete no barraco falar rapidamente com a Rocio, vizinha generosa que leva e traz da escolinha os filhos de das Dores, junto com sua Carolayne.

Hoje segue célere, como sempre, para casa, vai feliz, carrega no sutiã o pagamento das faxinas da semana. Gastou um pouco no mercado, leva frango, salsicha e pão, um creme cheiroso para pentear os cabelos de Greice,

sorri ao lembrar dos cachos longos e lindos da menina, leva também um sabonete chique, na caixinha bonita, presente da patroa, vai dar pra Rocio, vizinha boa merece.

Assim que desce do ônibus, o solavanco no peito.

Carros da polícia, homens que correm, as biroscas todas fechadas, os passageiros que desembarcaram com ela da condução tentam desesperados subir os degraus que levam ao alto do morro, enquanto outros descem correndo, no ar cheiro forte de pólvora, gritos e tiros, muitos tiros.

_Ô dona, não pode subir, quer morrer?

_Meus filhos estão lá sozinhos, vou subir para buscar eles.

_Não vai porra nenhuma, vai descendo.

Das Dores grita, esperneia desesperada, ouve muitos gritos, o braço que a segura amolece quando uma pedra é atirada por alguém que ela não vê entre as lágrimas, atingido no ombro o soldado arqueja e a larga, um sargento com uma escopeta na mão, grita _Deixa, deixa subir que foda-se.

_Vai negona vai, dane-se.

As pernas de das Dores doem moles, ela soluça alto, mãos machucadas ela praticamente arrasta-se nos últimos degraus.

Reconhece um rapagão seu vizinho, que carrega o pai doente, atrás sua mulher e os dois filhos correm._Viu minhas crianças? O menino responde:

_Estão aí para trás com dona Rocio. Das Dores percebe que perdeu um sapato, joga o outro fora, enxergando um casal que corre carregando crianças.

_Rocio, pelo amor de Deus cadê meus filhos?

_Vem das Dores, as crianças estão aqui.

_O marido de Rocio tem Greice no colo, olhos enormes e soluços doloridos.

_Vamos as duas, continuem a descer, depois conversam.

Agarrada a mão de Michel, descalça, toda descabelada, o coração saindo pela boca, das Dores reza uma algaravia que pretende ser um agradecimento a Deus por suas crianças e para ter forças para chegar ao asfalto.

Os tiros longe e esparsos agora, no frescor da madrugada com os dois filhos agarrados a seu corpo, das Dores tem os olhos secos, não adianta chorar.

Ela e Rocio se olham, sorriem e depois riem como loucas. _Onde estão seus sapatos?

_Perdi um, joguei o outro.

_Droga fiz uma janta tão boa...

_Trouxe alguma coisa pras crianças comerem?

_Como, Tião? Só lembrei do colchonete, sabia que passaríamos a noite ao relento.

_Mãe, podemos comer, então essas salsichas e pão?

_Claro meu filho, você pegou a sacola, ainda bem, nem lembrei mais dela.

_Peguei claro, sabia que comeríamos fora hoje.





sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Ceia



Miguel atarefa-se pela cozinha, dona Elvira curva-se vez ou outra na poltrona para observá-lo pela porta em arco que separa a pequena sala de estar da cozinha.

Franze os lábios e sacode a cabeça em um não mudo e desalentado.

Das panelas no fogo escapam odores deliciosos, uma carne suculenta acaba de ser retirada do forno e agora Miguel intercala fatias de abacaxi às de carne exatamente como vira no programa de culinária.

- Humm. Giordana, você não imagina como isso vai ficar delicioso. Tá confortável aí? Quer uma almofada para apoiar as costas?

Miguel afasta-se e olha a mesa com satisfação, as velas, as flores e as taças vermelhas combinando.

- Bom, agora Giordana só mais dez minutinhos, para o meu banho.

- Não demore Miguel, estou com fome e não posso ficar acordada até muito tarde.

- Tá, tá mãe, volto já.

A velha senhora anda vagarosamente até a mesa, afasta uma cadeira e senta-se com cuidado para não derrubar nada, come algumas uvas encarando a figura a sua frente.

- Coisa feia, como meu filho não enxerga que está perdendo a vida... Bem diz o Dr. Temporal, preciso convencê-lo a tratar-se...

A figura de borracha e celulóide à frente da senhora permanece imóvel e tesa.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Hora

   
Corre o tempo lá fora, contado no relógio dos homens

com um tiquetaquear adiantado, tudo alterado pois urge

correr a vida, terminar o que foi começado, chegar, voltar

ir e ficar, economizar a luz, o tempo, a água, esgotar as alternativas.


Tudo inútil pois abaixo do sol Ele dita o tempo _o seu tempo_

pelo desfolhar das flores, pelo cair das folhas, pelo sazonar das frutas,

e o que conta então não é o desígnio e muito menos á vontade dos homens

mas a ordem divina e as batidas sãs dos corações.