quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

E No Natal



 

Elvira se espreme entre as muitas pessoas que tentam chegar o mais

breve possível em casa, o homem atarracado e azeitonado a observa

apreensivo, ela fica atenta a manobra do ônibus pois sabe que no terminal

apinhado, se escorregar, pode ser pisoteada pelos passageiros.



Se tivesse visto o homem ficaria admirada, pois quando consegue

equilibrar-se dentro do ônibus ele já está observando seus esforços para

segurar as sacolas que carrega com dificuldade e percebe que ela carrega

duas grandes sacolas retornáveis.


Quer salvar o planeta. Ih! Acho que é tarde...ai que Ele não me ouça

ou além de me mandar ficar com ela nestes dias é capaz de me mandar

ficar por aqui sabe lá quanto tempo.



Elvira torce pra chegar ao próximo terminal a tempo de pegar o

ligeirão pois do contrário terá que esperar outro ônibus ou andar uma

distância grande e passar a ponte dos Padilhas que está há seis meses

aguardando conserto, fazendo os transeuntes passar por uma pinguela.



O homem percebe a apreensão dela e o palavrão murmurado ao ver

que o ligeirão acaba de deixar o terminal, fica desalentado quase tanto

quanto ela por não ter previsto a situação.



Elvira hesita um momento, sabe que se for aguardar outro ônibus

naquele burburinho de gente, que como ela quer chegar em casa a tempo

de preparar um jantar mais elaborado, vai se atrasar.



Então decide que mesmo com todo o peso das sacolas e a

dificudade da caminhada irá a pé, anda rapidamente até a catraca e deixa

o terminal.



O homem a segue quase correndo, ela e diversas pessoas andam por

uma trilha circundada de mato alto, a chuva forte que caiu logo após o

almoço deixa o caminho liso, qualquer escorregada ali é tombo na certa.

Elvira olha para cima e murmura:

-Me ajuda Baltazar.



O homem junta as duas mãos a frente da boca e também murmura:

-Não há de ver que a criatura me chama mesmo, Ele tem razão, ando muito

distraido, mas eles só chamam Pedro, Maria, Paulina, Fatima, Antonio

que o é rei do pedaço...e essa pobrezinha resolveu chamar logo eu?



Andando próximo de Elvira ele segura sua sacola mais pesada de modo que

sem perceber ela tem o peso bem aliviado e embora suando e bufando sobe a

ladeira íngreme, quando chega quase ao final vê o ônibus, seus pés patinam e ela acha

que não vencerá os últimos passos mas então Baltazar em desespero de causa vai

atrás dela e empurra seu bumbum com força, ela com o braço estendido dá sinal e

torna a segurar a sacola.



Ufa! por milagre não deixei cair a sacola.



Ufa! milagre mesmo, que peso é esse que você carrega aí criatura? E você aí,

levanta e dá lugar pra ela.



Elvira nem acredita quando o rapaz sentado a sua frente levanta para descer,

afastando as sacolas com dificuldade ela senta e ajeita a sacola grande a seus pés e as

outras, mantém no colo.



Graças a Deus, pensa, em dez minutos estarei em casa e depois do banho vou

fazer uma janta caprichada pra mãe e pra minha princesa, trabalhei como um burro de

carga esse mês mas a ceia de natal está garantida.



O homem sentado ao chão entre as pessoas fuça as sacolas sem qualquer pejo.

Humm! frango, credo eles comem isso? ah mas tem passas também e uvas,

e...nozes, bolachas doces, nada de figo, damasco... mas tem vinho, humm.



Um trovão enche o céu de luzes e barulho assustando Elvira e também o

homem.



_Eia não precisa ratiar, eu sei que o vinho é dela, não ia abrir só estava

olhando.



Elvira agarra todas as sacolas e sempre com o homem nos calcanhares

dividindo o peso das sacolas anda mais duas quadras, abre um portão de metal, solta

as sacolas e admira a pequena casa pensando que ali está todo o dinheiro que ela

conseguiu reunir em dez anos de economia e que ainda vai pagar mais dez anos, mas

as prestações são pequenas e por dentro tá uma belezinha récem pintada, azulejos na

cozinha e banheiro, durante o ano vai pintar por fora.



Se Deus quiser e você trate de me ajudar São Baltazar.

Ai! Eu te ajudo sim, mas não sou São coisa nenhuma sou rei, aquele que levou

mirra para o Senhor, e você é a primeira criatura a me chamar assim fora do dia seis

de janeiro me obrigando a descer aqui depois de mais de 2000 anos.



_Mãe que sorte que você já chegou, estava louca pra você chegar, tia Ika veio

nos ver e trouxe roupas que ganhou para vovó, trouxe um caderno de dez matérias

para mim e diversos adesivos e para você um casaco de lã, mandou te dizer que é

usado, ganhou da patroa dela mas está quase novo.



_Que bom filha. E você mãe, passou bem o dia?



_Tive dor pelo corpo, mas tomei o remédio e melhorei, consegui áte limpar a

cozinha pra ajudar a Jaqueline.



_Maravilha.



Elvira relanceia o olhar pelo comôdo limpíssimo, o homem também observa a

sala simples mais bem ajeitada, a cozinha anexa é só um pequeno corredor com

azulejos floridos na parede sobre a pia, de um lado desta o fogão no outro uma

geladeira enorme e velha, um armário antigo mas muito bem pintado de branco ajuda

a delimitar os dois comôdos, sem qualquer cerimônia ele vai entrando por um

pequeno corredor e abre a primeira porta que encontra.



Banheiro, invenção prática dos homens, pena que para cada boa idéia tenham

tido outas três infernais... que Ele não me ouça.



E aqui, quarto, coitadas só duas camas.



Volta a sala e não vê Elvira.



_Mamãe foi tomar banho, hoje vamos jantar mais tarde, quer que eu prepare

um pão pra você vó?



_Não, espero um pouco, o que ela trouxe tanto aí?



_Comidas, presentes...é natal vó.



_Bobinha, eu sei.



Baltazar continua sua exploração pela sala e repentinamente dá um salto que

chacolha os enfeites da árvore assustando ávo e neta.



_Feche a porta Jaque, o vento derruba a árvore.



A adolescente obedece olhando ressabiada na direção de Baltazar que

permanece com as duas mãos postas a frente da boca.



A comoção deve-se ao fato de que enquanto fuçava a árvore ele descobriu

entre os reis magos uma representação em gesso de sua figura com cabelos azeviche,

barba muito negra, o turbante branco e lilás e o manto curto que seu povo usava

naquela época e nas mãos a urna de mirra que ele ofereceu ao menino no estábulo na

noite em que ele, Gaspar e Melquior seguiram a estrela.



Com o coração enternecido observa a mulher que saiu do banho e penteia os

cabelos falando com a mãe e a filha.



_Agora vou preparar uma galinha safada para nós igualzinha a que vimos na

revista, arroz e salada, mas não vamos esperar meia-noite viu mãe eu também não

aguento até lá.



Pronto o jantar as três trocam presentes a menina comprou panos de prato

para a mãe, com economias tiradas do dinheiro de seus lanches e para a avó uma

singela caixinha com dois lenços e a avó oferece uma blusa para a filha e para a neta

um tenis, a mãe dá blusa e shorts para a filha e um livro indicado pela professora.



Depois rezam, Baltazar, as pressas, se põe entre elas e ao final funga quando

escuta Elvira agradecer a ''São Baltazar" por tudo de bom que nos oferecestes nesse

ano.



Ai! não sou São criatura, ah mas tá bom, agora gosto muito de você e de sua

família também, tá?



A meia-noite as três dormem, mãe e filha no beliche e a avó na caminha de

solteiro.



Elvira, ouvindo o alarido das comemorações à meia-noite, persigna-se e

silenciosamente deseja felicidades para a mãe e a filha.



Na sala uma nuvenzinha suspensa abriga um homem que brinca com

um objetozinho, causando grande surpresa a Elvira na manhã seguinte ao encontrar a

figura de gesso largada próximo ao sofá da sala.



 

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