sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

E NO NATAL




 



Elvira se espreme entre as muitas pessoas que tentam chegar o mais


breve possível em casa, o homem atarracado e azeitonado a observa


apreensivo, ela fica atenta a manobra do ônibus pois sabe que no terminal


apinhado, se escorregar, pode ser pisoteada pelos passageiros.





Se tivesse visto o homem ficaria admirada, pois quando consegue


equilibrar-se dentro do ônibus ele já está observando seus esforços para


segurar as sacolas que carrega com dificuldade e percebe que ela carrega


duas grandes sacolas retornáveis.




Quer salvar o planeta. Ih! Acho que é tarde...ai que Ele não me ouça


ou além de me mandar ficar com ela nestes dias é capaz de me mandar


ficar por aqui sabe lá quanto tempo.





Elvira torce pra chegar ao próximo terminal a tempo de pegar o


ligeirão pois do contrário terá que esperar outro ônibus ou andar uma


distância grande e passar a ponte dos Padilhas que está há seis meses


aguardando conserto, fazendo os transeuntes passar por uma pinguela.





O homem percebe a apreensão dela e o palavrão murmurado ao ver


que o ligeirão acaba de deixar o terminal, fica desalentado quase tanto


quanto ela por não ter previsto a situação.





Elvira hesita um momento, sabe que se for aguardar outro ônibus


naquele burburinho de gente, que como ela quer chegar em casa a tempo


de preparar um jantar mais elaborado, vai se atrasar.





Então decide que mesmo com todo o peso das sacolas e a


dificudade da caminhada irá a pé, anda rapidamente até a catraca e deixa


o terminal.





O homem a segue quase correndo, ela e diversas pessoas andam por


uma trilha circundada de mato alto, a chuva forte que caiu logo após o


almoço deixa o caminho liso, qualquer escorregada ali é tombo na certa.


Elvira olha para cima e murmura:


-Me ajuda Baltazar.





O homem junta as duas mãos a frente da boca e também murmura:


-Não há de ver que a criatura me chama mesmo, Ele tem razão, ando muito


distraido, mas eles só chamam Pedro, Maria, Paulina, Fatima, Antonio


que o é rei do pedaço...e essa pobrezinha resolveu chamar logo eu?





Andando próximo de Elvira ele segura sua sacola mais pesada de modo que


sem perceber ela tem o peso bem aliviado e embora suando e bufando sobe a


ladeira íngreme, quando chega quase ao final vê o ônibus, seus pés patinam e ela acha


que não vencerá os últimos passos mas então Baltazar em desespero de causa vai


atrás dela e empurra seu bumbum com força, ela com o braço estendido dá sinal e


torna a segurar a sacola.





Ufa! por milagre não deixei cair a sacola.





Ufa! milagre mesmo, que peso é esse que você carrega aí criatura? E você aí,


levanta e dá lugar pra ela.





Elvira nem acredita quando o rapaz sentado a sua frente levanta para descer,


afastando as sacolas com dificuldade ela senta e ajeita a sacola grande a seus pés e as


outras, mantém no colo.





Graças a Deus, pensa, em dez minutos estarei em casa e depois do banho vou


fazer uma janta caprichada pra mãe e pra minha princesa, trabalhei como um burro de


carga esse mês mas a ceia de natal está garantida.





O homem sentado ao chão entre as pessoas fuça as sacolas sem qualquer pejo.


Humm! frango, credo eles comem isso? ah mas tem passas também e uvas,


e...nozes, bolachas doces, nada de figo, damasco... mas tem vinho, humm.





Um trovão enche o céu de luzes e barulho assustando Elvira e também o


homem.





_Eia não precisa ratiar, eu sei que o vinho é dela, não ia abrir só estava


olhando.





Elvira agarra todas as sacolas e sempre com o homem nos calcanhares


dividindo o peso das sacolas anda mais duas quadras, abre um portão de metal, solta


as sacolas e admira a pequena casa pensando que ali está todo o dinheiro que ela


conseguiu reunir em dez anos de economia e que ainda vai pagar mais dez anos, mas


as prestações são pequenas e por dentro tá uma belezinha récem pintada, azulejos na


cozinha e banheiro, durante o ano vai pintar por fora.





Se Deus quiser e você trate de me ajudar São Baltazar.


Ai! Eu te ajudo sim, mas não sou São coisa nenhuma sou rei, aquele que levou


mirra para o Senhor, e você é a primeira criatura a me chamar assim fora do dia seis


de janeiro me obrigando a descer aqui depois de mais de 2000 anos.





_Mãe que sorte que você já chegou, estava louca pra você chegar, tia Ika veio


nos ver e trouxe roupas que ganhou para vovó, trouxe um caderno de dez matérias


para mim e diversos adesivos e para você um casaco de lã, mandou te dizer que é


usado, ganhou da patroa dela mas está quase novo.





_Que bom filha. E você mãe, passou bem o dia?





_Tive dor pelo corpo, mas tomei o remédio e melhorei, consegui áte limpar a


cozinha pra ajudar a Jaqueline.





_Maravilha.





Elvira relanceia o olhar pelo comôdo limpíssimo, o homem também observa a


sala simples mais bem ajeitada, a cozinha anexa é só um pequeno corredor com


azulejos floridos na parede sobre a pia, de um lado desta o fogão no outro uma


geladeira enorme e velha, um armário antigo mas muito bem pintado de branco ajuda


a delimitar os dois comôdos, sem qualquer cerimônia ele vai entrando por um


pequeno corredor e abre a primeira porta que encontra.





Banheiro, invenção prática dos homens, pena que para cada boa idéia tenham


tido outas três infernais... que Ele não me ouça.





E aqui, quarto, coitadas só duas camas.





Volta a sala e não vê Elvira.





_Mamãe foi tomar banho, hoje vamos jantar mais tarde, quer que eu prepare


um pão pra você vó?





_Não, espero um pouco, o que ela trouxe tanto aí?





_Comidas, presentes...é natal vó.





_Bobinha, eu sei.





Baltazar continua sua exploração pela sala e repentinamente dá um salto que


chacolha os enfeites da árvore assustando ávo e neta.





_Feche a porta Jaque, o vento derruba a árvore.





A adolescente obedece olhando ressabiada na direção de Baltazar que


permanece com as duas mãos postas a frente da boca.





A comoção deve-se ao fato de que enquanto fuçava a árvore ele descobriu


entre os reis magos uma representação em gesso de sua figura com cabelos azeviche,


barba muito negra, o turbante branco e lilás e o manto curto que seu povo usava


naquela época e nas mãos a urna de mirra que ele ofereceu ao menino no estábulo na


noite em que ele, Gaspar e Melquior seguiram a estrela.





Com o coração enternecido observa a mulher que saiu do banho e penteia os


cabelos falando com a mãe e a filha.





_Agora vou preparar uma galinha safada para nós igualzinha a que vimos na


revista, arroz e salada, mas não vamos esperar meia-noite viu mãe eu também não


aguento até lá.





Pronto o jantar as três trocam presentes a menina comprou panos de prato


para a mãe, com economias tiradas do dinheiro de seus lanches e para a avó uma


singela caixinha com dois lenços e a avó oferece uma blusa para a filha e para a neta


um tenis, a mãe dá blusa e shorts para a filha e um livro indicado pela professora.





Depois rezam, Baltazar, as pressas, se põe entre elas e ao final funga quando


escuta Elvira agradecer a ''São Baltazar" por tudo de bom que nos oferecestes nesse


ano.





Ai! não sou São criatura, ah mas tá bom, agora gosto muito de você e de sua


família também, tá?





A meia-noite as três dormem, mãe e filha no beliche e a avó na caminha de


solteiro.





Elvira, ouvindo o alarido das comemorações à meia-noite, persigna-se e


silenciosamente deseja felicidades para a mãe e a filha.





Na sala uma nuvenzinha suspensa abriga um homem que brinca com


um objetozinho, causando grande surpresa a Elvira na manhã seguinte ao encontrar a


figura de gesso largada próximo ao sofá da sala.





 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SARA

    

 

ME LEMBRO DO HORTO QUE ME ENCANTOU COM SUAS MUITAS FLORES

E SUAS ALTAS PALMEIRAS ORLANDO O CAMINHO, EM MINHA IGNORÂNCIA

DE CRIANÇA PENSAVA QUE TUDO QUE SE LOCALIZAVA FORA DA CIDADE

ERA CAIPIRA E FEIO.

CHOREI IRMÃ ENQUANTO DESCIA TEU ESQUIFE ARREDONDADO E ROSA, LINDO!

FABRICADO ALGUMAS HORAS ANTES PELAS MÃOS NODOSAS E ABENÇOADAS DE NOSSO TIO POSTIÇO, TEU PADRINHO, QUE PAGÃ NÃO SERIAS.

DEPOIS ESSAS MESMAS MÃOS DIRIGIRAM O VELHO CAMINHÃO, OITO, DEZ PESSOAS NA CARROCERIA, A MAIORIA CRIANÇAS QUE DE VOCÊ FORAM DESPEDIR-SE JÁ QUE OS DEMAIS VIGIAVAM E REZEVAM PELA MÃE EM ESTADO GRAVE.

PARAMOS, ACABOU O ÓLEO, TIO VAI BUSCAR LÁ LONGE NO POSTO.

_COMPADRE PEGUE AQUI VÁ ÀQUELA BODEGA, ME TRAGA DUAS RODELAS DE SALSICHO E QUINZE PÃES D'AGUA OU QUATRO BENGALAS.

COMEMOS TODOS A BEIRA DA ESTRADA COMO SE ESTIVESSEMOS NUM PEQUINIQUE.

A LEMBRANÇA DE AGORA É QUE PROMETI AO VÊ-LA DEPOSITADA HÁ SETE PALMOS:

_QUANDO MOÇA VOLTO PARA VISITÁ-LA. E NÃO VOLTEI.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

LUA

    
NO ESPESSO COBERTOR QUE SE AFASTAVA PARA DAR PASSAGEM

À TORRENTE LÍQUIDA TE VI CHEIA, LINDA E GRÁVIDA DE LUZ, PLENA

DE AZUL PLÚMBEO.

FUGIAS CÉLERE PARA O ACONCHEGO DOS CARNEIROS, QUE ONDULAVAM

REVOLUTEANTES, AO ENCONTRO DO INFINITO.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

CENTRAL DE LEITOS

   

 

Recentemente vi no jornal uma discussão sobre a central de leitos onde parentes de pacientes denunciavam a demora em se conseguir leitos para os pacientes em hospitais mesmo para casos mais graves.

Diante dos absurdos mostrados, apareceu uma funcionária da SEC afirmando que existe vaga sim, mas os pacientes e famíliares não sabem quando o paciente precisa de tratamento hospitalar.

Em minha rua dois idosos morreram depois de espera prolongada um dois quais permanecendo quatro dias em coma na unidade de sáude vinte e quatro horas do bairro, transferida para o hospital de idosos, a filha constatou que apesar das diversas vagas existentes há dias outros idosos que estavam no "vinte e quatro horas" não eram transferidos para o referido hospital sendo que um foi a óbito ali mesmo provocando indignação na família e vizinhos.

Na última terça-feira visitando um familiar, que esperava vaga pela central de leitos, fiquei horrorizada com a situação, duas pancreatites, uma delas descobriu-se depois tratar-se de uma hepatite, uma suspeita de h1n1 e meu parente com vasculopatia diabética com o pé descoberto apoiado numa caixa de soro que uma alma caridosa lhe tinha fornecido para apoio, todos no mesmo espaço,nos terríveis cadeirões, a frente dele um senhor com dois frascos de soro, sonda vesical e nasogástrica com oxigênio, que a filha segurava com uma mão e com a outra a cabeça do paciente que a maioria do tempo estava pendida sobre o peito.

Uma parente dela perguntou a enfermagem se não era possível conseguir uma cadeira "daquelas de plástico mesmo ela passou a noite aí, tá exausta"a auxiliar de enfermagem disse que ela devia ir lá fora descansar um pouco," mas quem segura a cabeça, ele pode ficar sem oxigênio?"

Verificado a pressão do idoso a auxiliar levou um susto e saiu a procura do médico.

_Ah! tá chocado gente. aumente o gotejamento rápido aí do fisiológico...

Duas horas da madrugada ele foi transferido para um leito na enfermaria, a filha me contou chorosa que ele contribuiu durante trinta e um anos antes de aposentar e doze depois de aposentar e agora vai morrer sentado aqui, sem conseguir uma cama. Para brasileiros que não podem pagar seguridade particular é assim e a situação dos que podem não é muito melhor.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PARA QUE NASCESTE

   
Sei a resposta na ponta da língua não foi para as flores, para os presentes,

as festas, principalmente as festinhas, não, mas sim para o esgoto mais fétido,

os esquecimentos mais dolorosos, jamais a França e sim a periferia mais longinqua

e triste possível, para você nunca os cafés feéricos os passeios deslumbrantes, o

expresso do Oriente? rs,rs,rs. nem o serra verde express...

Para você pedras as mais duras e pesadas, para você grandes desilusões e quanto

mais sofrimento melhor, indiferença, abandono e maldade, sempre haverão em

boas doses os ambientes todos precários, lustres nunca, sempre lâmpadas nuas e

paredes boloradas e negras e tudo chegando tarde e de forma sofrida, por isso

agora chega.

sábado, 19 de julho de 2014

AUSÊNCIA

    

QUEM DIRIA SENHORA QUE TE RETIRARIAS PARA ALÉM MAR

PARA O SOL PUNGENTE E OUTROS RECANTOS DO IRREAL VIVER

COM ANTECEDÊNCIA TÃO IMPREVISTA E DOLORIDA E QUE

SOFRERIAMOS TANTO COM TEU ALHEAMENTO QUE EM NOSSO AMOR

CANHESTRO E DESMEDIDO E JAMAIS CORRESPONDIDO COMO DESEJEI

EM MEU IMAGINÁRIO ABSOLUTO E EGOÍSTA, TÍPICO DA MÁ PESSOA QUE

SEMPRE FUI.

E AGORA É TARDE, INEXORAVELMENTE TARDE.

domingo, 1 de junho de 2014

PRIMA AMIGA, CAMARADA

  
Há uma semana você se foi, a força que nos criou considerou finda a tua estrada, o que nos resta fazer? Nada. O homem se compraz em falar do avanço de certas aréas, estamos vivendo muito mais e melhor.

Melhor? Alguns felizardos sim, não para a imensa maioria, haja vista o número cada vez maior de pacientes nos consultórios de psiquiatria tentando minimizar os efeitos do desalento, o número cada vez maior de assassinatos sob qualquer alegação, as gripes, o diabetes, o coração e principalmente o SUS, que demora, negligencia, e muitas vezes se omite, comete imprudência e impeícia.

Mas o objetivo das mal traçadas é dizer que o mundo, para mim pelo menos, está mais pobre e triste.

terça-feira, 27 de maio de 2014

VIDA

A vida é hedionda demais para que a preservemos segundo Paul Bowles, concordo plenamente com ele, apesar disso não deixo de tomar meus remédios, fazer caminhadas, comer frutas, verduras e jamais frituras, bacon ou doces.

Considero as viagens essenciais para a vida e que navegar é preciso, mas minha navegação maior consiste em dois dias passados na bahia da barbitonga em Santa Catarina, e também já fiz uma viagem de quatro dias a Góias, mas nessas alturas da vida resolvi que devo ignorar os riscos, e atualmente você sempre corre riscos inumeráveis...Portanto assim que a coragem vencer a apatia pretendo partir por terra a caminho do delta que me levará a canção no ocaso.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Fel

 

 
O fel que sempre esteve em minhas entranhas, controlado a custo em níveis toleráveis, acaba de chegar ao ápice em grande parte devido ao sangue de minha prima, amiga, camarada, que teima em jorrar para fora de seu corpo e com isso expulsá-la de nosso convívio.

E o amor maior que se tem na vida há quatro anos presa a um trolinho, que a impede de ir e vir, coisa que ela prezava sobremaneira, e o pai que mata o filho, o capeta que junta duas criaturas que só a esse pai podiam assemelhar-se, a filha que mata a mãe para roubá-la...

Sou obrigada a votar, mas por maior cuidado que tenha na hora de escolher o fulano, mal empossado começa a mostrar a caratonha mais canalha possível, sou obrigada a ver crianças e velhos, mulheres e homens morrendo pelo chão de hospitais e unidades de saúde?? sem atendimento adequado e agora para culminar a natureza respondendo a todo o vilipêndio que o homem vem a séculos cometendo contra ela... sem água não teremos luz, comida...

Então só destilando ardência e amargor...