Elvira se espreme entre as muitas pessoas que tentam chegar o mais
breve possível em casa, o homem atarracado e azeitonado a observa
apreensivo, ela fica atenta a manobra do ônibus pois sabe que no terminal
apinhado, se escorregar, pode ser pisoteada pelos passageiros.
Se tivesse visto o homem ficaria admirada, pois quando consegue
equilibrar-se dentro do ônibus ele já está observando seus esforços para
segurar as sacolas que carrega com dificuldade e percebe que ela carrega
duas grandes sacolas retornáveis.
Quer salvar o planeta. Ih! Acho que é tarde...ai que Ele não me ouça
ou além de me mandar ficar com ela nestes dias é capaz de me mandar
ficar por aqui sabe lá quanto tempo.
Elvira torce pra chegar ao próximo terminal a tempo de pegar o
ligeirão pois do contrário terá que esperar outro ônibus ou andar uma
distância grande e passar a ponte dos Padilhas que está há seis meses
aguardando conserto, fazendo os transeuntes passar por uma pinguela.
O homem percebe a apreensão dela e o palavrão murmurado ao ver
que o ligeirão acaba de deixar o terminal, fica desalentado quase tanto
quanto ela por não ter previsto a situação.
Elvira hesita um momento, sabe que se for aguardar outro ônibus
naquele burburinho de gente, que como ela quer chegar em casa a tempo
de preparar um jantar mais elaborado, vai se atrasar.
Então decide que mesmo com todo o peso das sacolas e a
dificudade da caminhada irá a pé, anda rapidamente até a catraca e deixa
o terminal.
O homem a segue quase correndo, ela e diversas pessoas andam por
uma trilha circundada de mato alto, a chuva forte que caiu logo após o
almoço deixa o caminho liso, qualquer escorregada ali é tombo na certa.
Elvira olha para cima e murmura:
-Me ajuda Baltazar.
O homem junta as duas mãos a frente da boca e também murmura:
-Não há de ver que a criatura me chama mesmo, Ele tem razão, ando muito
distraido, mas eles só chamam Pedro, Maria, Paulina, Fatima, Antonio
que o é rei do pedaço...e essa pobrezinha resolveu chamar logo eu?
Andando próximo de Elvira ele segura sua sacola mais pesada de modo que
sem perceber ela tem o peso bem aliviado e embora suando e bufando sobe a
ladeira íngreme, quando chega quase ao final vê o ônibus, seus pés patinam e ela acha
que não vencerá os últimos passos mas então Baltazar em desespero de causa vai
atrás dela e empurra seu bumbum com força, ela com o braço estendido dá sinal e
torna a segurar a sacola.
Ufa! por milagre não deixei cair a sacola.
Ufa! milagre mesmo, que peso é esse que você carrega aí criatura? E você aí,
levanta e dá lugar pra ela.
Elvira nem acredita quando o rapaz sentado a sua frente levanta para descer,
afastando as sacolas com dificuldade ela senta e ajeita a sacola grande a seus pés e as
outras, mantém no colo.
Graças a Deus, pensa, em dez minutos estarei em casa e depois do banho vou
fazer uma janta caprichada pra mãe e pra minha princesa, trabalhei como um burro de
carga esse mês mas a ceia de natal está garantida.
O homem sentado ao chão entre as pessoas fuça as sacolas sem qualquer pejo.
Humm! frango, credo eles comem isso? ah mas tem passas também e uvas,
e...nozes, bolachas doces, nada de figo, damasco... mas tem vinho, humm.
Um trovão enche o céu de luzes e barulho assustando Elvira e também o
homem.
_Eia não precisa ratiar, eu sei que o vinho é dela, não ia abrir só estava
olhando.
Elvira agarra todas as sacolas e sempre com o homem nos calcanhares
dividindo o peso das sacolas anda mais duas quadras, abre um portão de metal, solta
as sacolas e admira a pequena casa pensando que ali está todo o dinheiro que ela
conseguiu reunir em dez anos de economia e que ainda vai pagar mais dez anos, mas
as prestações são pequenas e por dentro tá uma belezinha récem pintada, azulejos na
cozinha e banheiro, durante o ano vai pintar por fora.
Se Deus quiser e você trate de me ajudar São Baltazar.
Ai! Eu te ajudo sim, mas não sou São coisa nenhuma sou rei, aquele que levou
mirra para o Senhor, e você é a primeira criatura a me chamar assim fora do dia seis
de janeiro me obrigando a descer aqui depois de mais de 2000 anos.
_Mãe que sorte que você já chegou, estava louca pra você chegar, tia Ika veio
nos ver e trouxe roupas que ganhou para vovó, trouxe um caderno de dez matérias
para mim e diversos adesivos e para você um casaco de lã, mandou te dizer que é
usado, ganhou da patroa dela mas está quase novo.
_Que bom filha. E você mãe, passou bem o dia?
_Tive dor pelo corpo, mas tomei o remédio e melhorei, consegui áte limpar a
cozinha pra ajudar a Jaqueline.
_Maravilha.
Elvira relanceia o olhar pelo comôdo limpíssimo, o homem também observa a
sala simples mais bem ajeitada, a cozinha anexa é só um pequeno corredor com
azulejos floridos na parede sobre a pia, de um lado desta o fogão no outro uma
geladeira enorme e velha, um armário antigo mas muito bem pintado de branco ajuda
a delimitar os dois comôdos, sem qualquer cerimônia ele vai entrando por um
pequeno corredor e abre a primeira porta que encontra.
Banheiro, invenção prática dos homens, pena que para cada boa idéia tenham
tido outas três infernais... que Ele não me ouça.
E aqui, quarto, coitadas só duas camas.
Volta a sala e não vê Elvira.
_Mamãe foi tomar banho, hoje vamos jantar mais tarde, quer que eu prepare
um pão pra você vó?
_Não, espero um pouco, o que ela trouxe tanto aí?
_Comidas, presentes...é natal vó.
_Bobinha, eu sei.
Baltazar continua sua exploração pela sala e repentinamente dá um salto que
chacolha os enfeites da árvore assustando ávo e neta.
_Feche a porta Jaque, o vento derruba a árvore.
A adolescente obedece olhando ressabiada na direção de Baltazar que
permanece com as duas mãos postas a frente da boca.
A comoção deve-se ao fato de que enquanto fuçava a árvore ele descobriu
entre os reis magos uma representação em gesso de sua figura com cabelos azeviche,
barba muito negra, o turbante branco e lilás e o manto curto que seu povo usava
naquela época e nas mãos a urna de mirra que ele ofereceu ao menino no estábulo na
noite em que ele, Gaspar e Melquior seguiram a estrela.
Com o coração enternecido observa a mulher que saiu do banho e penteia os
cabelos falando com a mãe e a filha.
_Agora vou preparar uma galinha safada para nós igualzinha a que vimos na
revista, arroz e salada, mas não vamos esperar meia-noite viu mãe eu também não
aguento até lá.
Pronto o jantar as três trocam presentes a menina comprou panos de prato
para a mãe, com economias tiradas do dinheiro de seus lanches e para a avó uma
singela caixinha com dois lenços e a avó oferece uma blusa para a filha e para a neta
um tenis, a mãe dá blusa e shorts para a filha e um livro indicado pela professora.
Depois rezam, Baltazar, as pressas, se põe entre elas e ao final funga quando
escuta Elvira agradecer a ''São Baltazar" por tudo de bom que nos oferecestes nesse
ano.
Ai! não sou São criatura, ah mas tá bom, agora gosto muito de você e de sua
família também, tá?
A meia-noite as três dormem, mãe e filha no beliche e a avó na caminha de
solteiro.
Elvira, ouvindo o alarido das comemorações à meia-noite, persigna-se e
silenciosamente deseja felicidades para a mãe e a filha.
Na sala uma nuvenzinha suspensa abriga um homem que brinca com
um objetozinho, causando grande surpresa a Elvira na manhã seguinte ao encontrar a
figura de gesso largada próximo ao sofá da sala.
Nenhum comentário:
Postar um comentário